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Nesse caso, vale a pena atentar para o sentido depurado do termo
que certamente vem da art "participacionista" da década de
1960, definida também como "obra aberta". O
"parangolé" do artista plástico carioca Hélio
Oiticica é um exemplo maravilhoso de
explicitação dos fundamentos da interatividade.
O parangolé rompe com o modelo
comunicacional baseado na transmissão. Ele é pura
proposição à participação ativa
do "espectador" - termo que se torna inadequado, obsoleto. Trata-se
de participação sensório-corporal e
semântica e não de participação
mecânica. Oiticica quer a intervenção
física na obra de arte e não apenas
contemplação imaginal separada da
proposição. O fruidor da arte é solicitado
à "completação" dos significados propostos no
parangolé. E as proposições são
abertas, o que significa convite à co-criação
da obra. O indivíduo veste o parangolé que pode ser
uma capa feita com camadas de panos coloridos que se revelam
à medida que ele se movimenta correndo ou dançando.
Oiticica o convida a participar do tempo da criação
de sua obra e oferece entradas múltiplas e
labirínticas que permitem a imersão e
intervenção do "participador", que nela inscreve sua
emoção, sua intuição, seus anseios, seu
gosto, sua imaginação, sua inteligência.
Assim a obra requer "completação"
e não simplesmente contemplação. Segundo o
próprio Oiticica, "o participador lhe empresta os
significados correspondentes - algo é previsto pelo artista,
mas as significações emprestadas são
possibilidades suscitadas pela obra não previstas, incluindo
a não-participação nas suas inúmeras
possibilidades também". Esta concepção de arte
(ou "antiarte", como preferia Oiticica), inconcebível fora
da perspectiva da co-autoria, tem algo a sugerir ao professor:
mesmo estando adiante dos seus alunos no que concerne a
conhecimentos específicos, propõe a aprendizagem na
mesma perspectiva da co-autoria que caracteriza o parangolé
e a arte digital. O professor propõe o conhecimento.
Não o transmite. Não o oferece à
distância para a recepção audiovisual ou
"bancária" (sedentária, passiva), como criticava o
educador Paulo Freire.
Ele propõe o conhecimento aos estudantes,
como o artista propõe sua obra potencial ao público.
Isso supõe, segundo Thornburg & Passarelli, "modelar os
domínios do conhecimento como 'espaços conceituais',
onde os alunos podem construir seus próprios mapas e
conduzir suas explorações, considerando os
conteúdos como ponto de partida e não como ponto de
chegada no processo de construção do conhecimento". A
participação do aluno se inscreve nos estados
potenciais do conhecimento arquitetados pelo professor de modo que
evoluam em torno do núcleo preconcebido com coerência
e continuidade. O aluno não está mais reduzido a
olhar, ouvir, copiar e prestar contas. Ele cria, modifica,
constrói, aumenta e, assim, torna-se co-autor. Exatamente
como no parangolé, em vez de se ter obra acabada,
têm-se apenas seus elementos dispostos à
manipulação.
O professor disponibiliza um campo de
possibilidades, de caminhos que se abrem quando elementos
são acionados pelos alunos. Ele garante a possibilidade de
significações livres e plurais e, sem perder de vista
a coerência com sua opção crítica
embutida na proposição, coloca-se aberto a
ampliações, a modificações vindas da
parte dos alunos. Uma pedagogia baseada nessa
disposição à co-autoria, à
interatividade, requer a morte do professor narcisicamente
investido do poder. Expor sua opção crítica
à intervenção, à
modificação, requer humildade. Mas, diga-se humildade
e não fraqueza ou minimização da autoria, da
vontade, da ousadia. Seja na sala de aula equipada com computadores
ligados à Internet, seja no site de educação
à distância, seja na sala de aula "infopobre", o
professor percebe que o conhecimento não está mais
centrado na emissão, na transmissão.
Percebe que os atores da
comunicação têm a interatividade e não
mais a separação da emissão e
recepção própria da mídia de massa e da
"cultura da escrita", quando autor e leitor não estão
em interação direta. Assim o professor propõe
o conhecimento à maneira do parangolé. Assim ele
redimensiona a sua autoria: não mais a prevalência do
falar-ditar, da distribuição, mas a perspectiva da
proposição complexa do conhecimento à
participação ativa dos alunos que já
aprenderam com o joystick do videogame e hoje aprendem com o mouse.
Enfim, a responsabilidade de disseminar um outro modo de
pensamento, de inventar uma nova sala de aula, presencial e
à distância, capaz de educar em nosso tempo.
* Professor da Faculdade de
Educação, autor do livro Sala de Aula
Interativa.
UNIVERSIDADE
DO ESTADO DO RIO DE
JANEIRO
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Ano VII - n°72 fevereiro/março/abril de
2001
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