TEMPO - Ferro e Sal (pesquisa & exposição)
TEMPO
Marcus Neme
Galeria Homero Massena - ES 28 de junho de 2005
Marcus Neme
O texto sempre condiciona a um pensamento linear e a uma tentativa de explanação sobre o assunto, portanto é limitado, não escuta o outro no ato imediato da escrita. Mas todo texto é necessário para suscitar reflexões sobre algum assunto. Espero contribuir, e muito obrigada, Marcus, por me convidar.
O projeto artístico é complexo, é dotado de especificidades muito particulares que nem sempre vêm à tona para osobservadores da arte. A arte contemporânea é o campo fértil para esta experimentação, o processo é parte integrantedo produto, os entremeios muitas vezes são tão ou mais importantes que o produto, e outros.... Daí a necessidade do registro fotográfico e ou videográfico para quem trabalha com estas proposições. Mas Marcus, com seu trabalho, vai além. Propõe que o que seria produto final - a obra de arte - seja passível desta inquietação, deste procedimento, podendo o consumidor de arte acompanhar o seu próprio fim. Seus trabalhos têm procedimentos próprios que a cada semana, mês, dia transforma-se enquanto cor, matéria, volume, sólido/líquido, massa.... O tempo é o grande artesão dos seus trabalhos. Quando o sal passa a ser a argamassa para suas estruturas de ferro (semelhante a pau a pique) provoca o horror dos materiais: estão fadados a se consumir, o ferro dá toda sua potência para o sal, alimenta-o, e o sal vai eliminando toda sua água, desidratando-se e assim consumindo o ferro para se tornar matéria sólida. È um verdadeiro caso de amor... Enquanto todos os engenheiros afastam estes materiais, Marcus os une , provocando causas e efeitos que são ali matérias vivas, modificando-se a cada tempo, provocando a antropofagia.
Dentro de um ambiente quase laboratorial (seu atelier) Marcus, artista cientista, monta suas peças e as condiciona para que sofram as ações do tempo, o suficiente, e como ele quer, para começar o enlace. Cada peça é vigiada dia a dia, observando se está úmido, chuvoso, o que acontece. Se tem muito sol com o reage, qual o melhor tipo de isolante, qual a melhor superfície, para o melhor resultado esperado/inesperado, e assim por diante, podendo então ter o diário/memória de cada trabalho, apontando para seu futuro.
Mesmo com todos estes cuidados seu trabalho não o obedece, tem desejos próprios. E mesmo depois, quando chegar à galeria, quando for para casa do consumidor, este procedimento vai continuar ocorrendo. A semelhança entre o processo - trabalho do Marcus com o homen é total, prática e objetiva: nascemos, vivemos, morremos.
Uma reflexão sobre tempo/matéria/projeto artístico.
Rosana Paste
05-05-05
oxigenAÇÃO - alquimia em processo
Matéria bruta sob ação sensível. Do sal solido ao ferro implícito...
...Com a benção do tempo produzido, maturação sob a forma de pintura.
O sal é corpo. Tecido ativo.
O ferro ouço - agulha estrutural - compondo no olhar a melodia do tempo. Costura visual, ato de união, onde menos é mais: adição + subtração. Como nos pontos riscados de solda, traz à tona uma reação, pintando com matéria um processo que escapa ao olhar - não é porque não se pode apreender que não existe...
...E insiste - o que antes passava ao largo do olhar (sensações imprevistas), a alquimia da matéria faz brotar.
Gestação, cópula forçada entre o olho e as mãos. Agregando a brancura do sal e o negrume do metal. Mestiçagem
pigmentada em azuis, laranjas e marrons - ferrugem, fugas, movimento pendular. Noite e dia, conforme a vontade do tempo.
Derme de um espectro vivo e latente, moldado pelo olhar experimentado e paciente, que faz seus ritos no tempo, como marcas e recortes de um espaço onde ciência e magia ganham contornos de objeto. Onde , o processo é o lugar da imagem.
Luciano Cardoso
Outono de 2005


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